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Quando a emoção encontra melodia

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*Por Manoel Izidoro

Vivemos em uma era marcada por estímulos constantes, sobrecarga emocional e, ao mesmo tempo, dificuldade de expressão. Crianças e adolescentes são cobrados a se comportar, ser produtivos, corresponderem às expectativas, mas raramente são ensinados a nomear e acolher o que sentem. É nesse cenário que a música emerge não apenas como uma atividade extracurricular, mas como uma ferramenta de saúde emocional e desenvolvimento pessoal.

Tocar um instrumento, cantar, compor ou simplesmente experimentar sons é uma forma de se comunicar sem precisar explicar. Quando palavras faltam, ou não dão conta, a melodia aparece como tradução daquilo que é íntimo, mas ainda confuso. Alunos que muitas vezes chegam tímidos, retraídos ou ansiosos, aos poucos vão descobrindo na música um canal de expressão e um espaço seguro onde não existem respostas erradas, apenas interpretações.

A prática musical ativa áreas do cérebro ligadas à emoção, à memória e à autorregulação. Não é por acaso que, ao tocar, muitos relatam sensação de alívio, pertencimento e confiança. Mais do que isso, a música convida ao contato consigo e com o outro, nos ensina a ouvir, respeitar o tempo do grupo e entender a pausa tanto quanto a nota.

Na Escola de Música IGC, em Cuiabá, vejo isso acontecer todos os dias. Os alunos não aprendem apenas escalas e partituras. Aprendem a respirar fundo, a lidar com o erro, a persistir diante do desafio. Aprendem, sem saber, sobre paciência, resiliência e sensibilidade. E, muitas vezes, encontram ali a coragem para mostrar ao mundo aquilo que sentem, não com palavras, mas com sons.

Por isso, é preciso valorizar o ensino musical não apenas como um caminho artístico, mas como um instrumento de cuidado com a saúde emocional. Porque, no fim das contas, a música é isso, uma forma de existir no mundo de maneira mais verdadeira. E quanto mais cedo oferecermos esse espaço de expressão, mais adultos inteiros e conscientes ajudaremos a formar.

*Manoel Izidoro é professor e proprietário da Escola de Música IGC de Cuiabá.

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O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

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Há um paradoxo instalado nas escolas brasileiras. Exigimos do docente formação cada vez mais sofisticada e, simultaneamente, reduzimos sua margem de decisão. O resultado é um profissional altamente demandado, pouco autorizado e valorizado.

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.

Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.

A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.

Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.

É tentador ler isso como permissividade. É o contrário. Aquele sistema é mais exigente que o nosso, apenas desloca o rigor para a porta de entrada, em vez de distribuí-lo em controles posteriores.

Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.

Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.

Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.

O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.

A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.

Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.

Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.

Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

 

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