Opinião
Os irmãos que a vida permite escolher
Opinião
Por Soraya Medeiros
O que transforma um desconhecido em alguém que passa a ocupar o lugar de um irmão? O que faz com que duas pessoas, sem qualquer laço de sangue, escolham permanecer lado a lado durante uma vida inteira?
A resposta parece simples. Costumamos dizer que a amizade nasce da afinidade, dos interesses em comum ou da convivência. Mas isso explica apenas o início da caminhada, nunca a sua permanência. Afinal, afinidades mudam, circunstâncias passam e a vida nos conduz por estradas inesperadas. O que faz algumas amizades atravessarem décadas é algo muito mais profundo: a decisão consciente de permanecer. Em outras palavras, a irmandade.
Muito antes de as redes sociais transformarem a palavra “amigo” em um simples botão de conexão, Aristóteles já refletia sobre esse vínculo em sua obra Ética a Nicômaco. O filósofo afirmava que existem amizades baseadas na utilidade, no prazer e na virtude. As duas primeiras desaparecem quando deixam de oferecer benefícios ou diversão. A terceira, porém, resiste ao tempo porque nasce do respeito, da admiração e do desejo sincero pelo bem do outro. É essa amizade virtuosa que mais se aproxima daquilo que chamamos de irmandade.
Os irmãos de sangue compartilham uma história escrita pela biologia. Os irmãos de alma escrevem essa história pela liberdade de escolher. Não existe obrigação, herança ou sobrenome que os mantenha unidos. Existe apenas uma escolha silenciosa de cuidar, acolher e permanecer, mesmo quando a vida oferece motivos para seguir caminhos diferentes. Talvez seja justamente essa liberdade que torna esse vínculo tão extraordinário. Ele não é imposto pelo destino; é cultivado diariamente.
Quando um amigo se torna irmão, as máscaras deixam de fazer sentido. Não é preciso aparentar força o tempo todo, esconder as fragilidades ou disputar reconhecimento. Surge um espaço raro de pertencimento, onde o sucesso é celebrado sem inveja, os erros são corrigidos com sinceridade e os silêncios são compreendidos sem constrangimento. A amizade verdadeira nos oferece aquilo que todos procuram, mas poucos encontram: a certeza de que podemos ser exatamente quem somos.
Vivemos, entretanto, em uma época em que as relações se tornaram rápidas e descartáveis. Colecionamos contatos, seguidores e curtidas como se números fossem capazes de medir afeto. Nunca estivemos tão conectados pela tecnologia e, paradoxalmente, tão expostos à solidão. Descobrimos, muitas vezes tarde demais, que centenas de contatos não substituem uma única pessoa disposta a atender o telefone no meio da madrugada apenas para dizer: “Estou aqui.”
Talvez isso aconteça porque relações profundas exigem justamente aquilo que a cultura da velocidade tenta evitar: compromisso. Ser amigo de verdade é permanecer quando tudo convida ao afastamento. É oferecer acolhimento antes do julgamento, escutar antes de aconselhar e estender a mão sem calcular vantagens. A amizade madura não vive da lógica da conveniência nem da contabilidade dos favores. Ela compreende que haverá momentos em que um sustentará o outro e, depois, os papéis naturalmente se inverterão. É assim que os vínculos verdadeiros amadurecem.
Há amizades que atravessam o tempo, sobrevivem às distâncias e até aos longos silêncios. Elas dispensam explicações constantes, porque foram edificadas sobre confiança, lealdade e respeito. Não precisam da presença diária para continuar existindo. Carregam uma certeza silenciosa: quando a vida apertar, um estará ao lado do outro.
No fim, compreendemos que a família não é formada apenas pelos laços que herdamos, mas também pelos que escolhemos construir. Existem irmãos que chegam pela biologia. Outros chegam pela vida. Estes não compartilham o mesmo sobrenome, mas dividem alegrias, cicatrizes, medos, conquistas e esperanças. Tornam-se porto seguro quando tudo parece incerto e lembram, com sua presença, que ninguém precisa atravessar a existência sozinho.
Porque a verdadeira amizade não nasce do sangue. Ela nasce da decisão diária de permanecer. E talvez seja justamente essa escolha, renovada todos os dias, que transforme um amigo em um irmão para toda a vida.
*Soraya Medeiros é jornalista.
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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