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Olhar a infância como potência educativa

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Por Márcia Amorim Pedr’Angelo

A forma como enxergamos a infância revela muito sobre a sociedade que estamos construindo. Quando a criança é vista apenas como alguém em formação, limitada a um futuro que ainda não chegou, a educação perde a chance de reconhecê-la em sua totalidade. É no brincar, na imaginação e nos vínculos afetivos que se moldam as bases da autonomia, da criatividade e da convivência.

Meu percurso como educadora começou no lugar mais exigente: a maternidade. Ao olhar para o meu primeiro filho, percebi a ausência de um sistema que o escutasse de verdade, que respeitasse seu ritmo e transformasse sua curiosidade em conhecimento significativo. Desse incômodo surgiu a decisão de criar uma proposta que unisse rigor e afeto. Um caminho que reconhecesse cada criança como sujeito central e não como peça a ser ajustada a um molde.

Olhar a infância como potência educativa é entender que brincar é uma linguagem de descoberta. Nesse espaço, a criança testa hipóteses, cria soluções, exercita a convivência e elabora sentidos para o mundo que a cerca. Brincar é experimentar e aprender com liberdade. Quando esse direito é negado, perde-se não apenas um momento lúdico, mas a principal forma de desenvolvimento integral.

Essa perspectiva também exige considerar a infância como tempo de redescoberta do mundo. As perguntas feitas pelas crianças desestabilizam certezas e obrigam os adultos a reaprender. Quando a escola se dispõe a escutá-las de verdade, encontra caminhos para metodologias mais coerentes.

Outro aspecto essencial é o suporte emocional. A criança precisa sentir-se segura para arriscar, errar e criar. Essa segurança nasce de relações de confiança, de vínculos afetivos e de um ambiente que acolhe a diversidade de experiências. Sem essa base, a infância perde parte de sua força e os adultos que dela emergem carregam marcas de insegurança e silenciamento.

À medida que o Dia das Crianças se aproxima, essa reflexão se torna ainda mais oportuna. A data não deve se reduzir ao consumo ou a gestos superficiais. É a oportunidade de reafirmar que proteger a infância é proteger o presente da sociedade e desenhar com mais responsabilidade o seu futuro.

Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Colégio Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

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Há um paradoxo instalado nas escolas brasileiras. Exigimos do docente formação cada vez mais sofisticada e, simultaneamente, reduzimos sua margem de decisão. O resultado é um profissional altamente demandado, pouco autorizado e valorizado.

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.

Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.

A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.

Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.

É tentador ler isso como permissividade. É o contrário. Aquele sistema é mais exigente que o nosso, apenas desloca o rigor para a porta de entrada, em vez de distribuí-lo em controles posteriores.

Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.

Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.

Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.

O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.

A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.

Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.

Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.

Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

 

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