Opinião
O deus do amanhã
Opinião
Por Orlando Morais
Vivemos sob o domínio de um deus silencioso, que jamais fala, mas a quem todos obedecem: o deus do amanhã. Ele reina sobre corações inquietos, mentes calculistas e mãos que apertam o que têm com medo de perder. Seu culto é discreto, mas feroz. Seus sacerdotes falam em nome da prudência, da prosperidade, da responsabilidade. Sua liturgia é a da poupança, do investimento, da promessa de recompensas futuras para quem hoje se sacrifica com afinco.
Esse deus não exige orações, apenas temor. É o medo do futuro que o sustenta — e o medo, por sua vez, alimenta a avareza. Guardar, acumular, reter. Trabalhar não pelo bem do outro, mas pela segurança própria. Poupar não por amor à temperança, mas por desconfiança da providência. Esse é o espírito que molda a alma do mundo moderno.
A avareza é, porém, mais do que a retenção de dinheiro ou bens. Ela é uma estrutura do olhar, um modo de se colocar no mundo. O avarento pensa em si antes de tudo e em relação a tudo. Crê merecer o melhor atendimento, o melhor lugar, o melhor objeto, a melhor marca — e considera um insulto quando algo lhe foge à expectativa.
Sente-se diminuído se precisa ceder passagem a outro carro, irrita-se se alguém demora dois segundos a mais no semáforo. Sente-se doente e insultado se paga mais por um produto, se perde uma promoção, se é mal atendido na loja ou restaurante, se lhe atrasam um pagamento.
O tempo, para ele, é um bem a ser capitalizado. Idolatra o tempo como extensão de seu domínio. Por isso, abomina tudo o que o faz parar, esperar, perder o controle. Não crê na eternidade, tampouco na imortalidade: só conhece o agora como instrumento do depois. Seu coração vive na ansiedade do próximo instante.
Essa lógica encontra expressão nítida na mentalidade liberal e nas correntes religiosas que, desde a Reforma, identificaram o sucesso material como sinal da eleição divina. O mérito pessoal tornou-se a nova salvação, e a acumulação de bens, sua prova visível. Max Weber mostrou como o protestantismo calvinista, ao afirmar a predestinação e a glória de Deus através da ordem do mundo, contribuiu para formar um espírito econômico no qual a avareza se mascara de virtude.
Mas essa visão é incompatível com o Evangelho. Cristo não ensinou a temer o amanhã, mas a viver o hoje com confiança. Seu ensinamento é claro, direto, impossível de ser diluído: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã” (Mt 6,34). Ele não exalta os prudentes que escondem seus talentos com medo do risco, mas os que multiplicam o que receberam com generosidade e fé. Para Ele, o pão é para hoje, e se for guardado para amanhã, apodrece — como o maná no deserto.
Enquanto o mundo moderno cultua o futuro como promessa de glória pessoal, Cristo convida a um abandono total ao Pai. Enquanto o espírito do mundo diz “sacrifica-te hoje para que te enriqueças amanhã”, o Senhor diz: “vende tudo o que tens e segue-me”. O Evangelho é um escândalo para o financista: não promete retorno, não acumula dividendos, não garante estabilidade — só entrega o Reino, que não é deste mundo.
A avareza é, portanto, mais que um vício individual: é uma disposição espiritual que se opõe frontalmente à lógica do dom. E o dom é o próprio Cristo. Ele se entrega sem medida, sem cálculo, sem garantia de retribuição. Ele não guarda nada para si: esvazia-se. E assim nos salva.
Diante disso, o verdadeiro cristão não pode viver como quem aposta no mundo. Sua confiança não está nos bens acumulados, nem em planos de longo prazo, mas na providência que cuida dos lírios do campo e das aves do céu. Ele sabe que o amanhã não pertence ao homem, e que viver como filho é viver no presente, com gratidão e generosidade.
É justamente aqui que se dá a ruptura mais profunda entre o cristianismo e a modernidade: a modernidade vive da hybris — a ânsia de dominar, de planejar tudo, de conquistar o futuro. O cristão vive da humildade — a disposição de receber o que é dado, de doar o que se tem, de confiar sem reservas. O primeiro quer transformar o mundo com a própria força. O segundo quer ser transformado por Deus.
Em tempos como os nossos, a generosidade tornou-se um ato de resistência. Dar é negar a lógica do mundo. Repartir é quebrar o feitiço da escassez. Confiar é, hoje, o maior escândalo. Por isso o cristão que vive no presente, que entrega seus bens ao próximo, que não teme o amanhã, torna-se sinal do Reino invisível — onde o pão se multiplica, não pela reserva, mas pelo dom.
Não se trata de desprezar a prudência, mas de purificá-la. Não se trata de louvar a pobreza material em si, mas de recordar que a verdadeira riqueza é o amor que se entrega. O cristão não despreza o tempo, mas sabe que o tempo só tem valor quando vivido como resposta ao chamado de Deus. E esse chamado é sempre agora.
Cristo nos ensinou a pedir apenas o pão de cada dia. Nem mais, nem menos. Tudo o que vai além disso é oferta ao deus do amanhã.
ORLANDO MORAIS é jornalista e filósofo
Opinião
Anúncios no ChatGPT: uma nova fronteira para o marketing digital
*Rômulo Rampini
Em fase beta, a plataforma utiliza o contexto das conversas para aproximar marcas de consumidores em momentos de pesquisa e decisão
A publicidade digital acaba de ganhar uma nova frente. O ChatGPT Ads começou a ser disponibilizado no Brasil em 11 de agosto de 2026, ainda em fase beta, permitindo que empresas exibam anúncios dentro de uma das plataformas de inteligência artificial mais utilizadas do mundo.
Aqui na agência, já iniciamos os primeiros testes. Entrar neste momento tem um objetivo claro: entender como a plataforma distribui os anúncios, avaliar a qualidade das oportunidades e construir experiência prática antes que esse novo espaço se torne mais concorrido.
O principal diferencial está na forma como a publicidade é selecionada. No Google, boa parte da estratégia começa pelas palavras-chave. Na Meta, trabalhamos com interesses, comportamentos e públicos. No ChatGPT, a proposta parte principalmente do contexto e da intenção identificada durante uma conversa.
O anunciante informa temas e situações em que seu produto ou serviço pode ser relevante. A plataforma chama essas informações de “dicas de contexto”. Elas não funcionam como palavras-chave exatas e também não garantem que o anúncio aparecerá sempre que determinado assunto for mencionado.
O sistema analisa a conversa, a mensagem do anúncio e a página de destino para entender se existe compatibilidade entre o problema apresentado pelo usuário e a solução oferecida pela empresa.
Essa mudança é importante porque a marca pode aparecer enquanto o consumidor ainda está pesquisando, comparando alternativas, organizando uma necessidade ou se preparando para tomar uma decisão. É uma publicidade baseada menos em quem a pessoa é e mais naquilo que ela está tentando resolver.
O ChatGPT Ads oferece campanhas cobradas por impressões ou cliques. Nas campanhas de cliques, a recomendação inicial de lance fica entre US$ 3 e US$ 5, com investimento mínimo diário informado de US$ 25 por campanha. A entrega acontece por meio de um leilão que considera não apenas o valor investido, mas também a qualidade e a relevância do anúncio. Portanto, oferecer o maior lance não garante sozinho a exibição. Uma mensagem mais coerente com a conversa pode competir melhor do que uma publicidade genérica com orçamento superior.
A plataforma permite acompanhar impressões, cliques, investimento e conversões. Também oferece recursos para mensurar cadastros, compras, solicitações de contato e outras ações realizadas depois que a pessoa acessa a página do anunciante.Os anúncios aparecem separados das respostas orgânicas e identificados como conteúdo patrocinado. Segundo a OpenAI, eles não interferem na elaboração das respostas. Os anunciantes também não recebem acesso às conversas, memórias, históricos ou dados pessoais dos usuários.
A maior oportunidade está no momento em que a publicidade pode aparecer. Muitas pessoas já utilizam o ChatGPT para entender problemas, pesquisar serviços, comparar produtos e pedir recomendações antes de uma compra.
Isso cria um novo ponto de contato entre a descoberta e a busca tradicional. A empresa pode entrar na jornada enquanto o consumidor ainda está formando seus critérios e avaliando qual caminho seguir.Mas é importante manter os pés no chão. Ainda é cedo para considerar o ChatGPT Ads um substituto do Google ou da Meta.
A plataforma está em desenvolvimento, possui audiência publicitária limitada e ainda precisa comprovar sua capacidade de gerar resultados consistentes em diferentes segmentos.
Os anúncios não são exibidos em todos os planos. Existem também restrições envolvendo menores de 18 anos, política, saúde e outros temas sensíveis. Formatos, regras e possibilidades de segmentação ainda podem mudar durante a fase beta.Por isso, transferir imediatamente uma parcela elevada do orçamento de canais consolidados seria precipitado. O caminho mais seguro é reservar uma verba de teste, preparar uma página de destino adequada, configurar a mensuração e comparar a qualidade dos resultados.
O ChatGPT Ads não representa apenas o surgimento de mais uma plataforma.
Ele inaugura uma lógica de publicidade baseada na compreensão do problema apresentado pelo consumidor durante uma conversa.
Isso exigirá novas competências das agências e dos profissionais de marketing. Não bastará selecionar públicos ou comprar palavras-chave. Será necessário compreender quais dúvidas antecedem uma compra, quais conversas revelam intenção comercial e em quais momentos uma marca realmente pode agregar valor.
Aqui na agência, já começamos esse trabalho na prática. Estamos testando contextos, mensagens, páginas de destino e formas de mensuração para entender como transformar conversas em oportunidades comerciais. Estar presente desde o início nos permite construir experiência real, antecipar mudanças e manter nossos clientes na ponta da inovação.Ainda é cedo para afirmar qual será o tamanho do ChatGPT Ads no mercado. Também seria irresponsável recomendar que as empresas abandonem Google e Meta para apostar todas as fichas em uma plataforma que ainda está em fase beta.
Mas existe uma diferença entre agir com cautela e chegar atrasado. Aqui na agência, escolhemos começar agora, com testes controlados, investimento responsável e atenção aos resultados. No marketing digital, quem espera uma mudança se consolidar para somente depois aprender normalmente entra quando a concorrência já entendeu o caminho.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produção, pesquisa e atendimento. Com os anúncios no ChatGPT, ela também começou a se transformar em mídia.
Rômulo Rampini é estrategista de marketing, consultor credenciado pelo SEBRAE MT e diretor da agência 3TRÊS
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