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O comércio de Cuiabá cresce, mas não como a gente gostaria

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Quem anda pelas ruas de Cuiabá percebe uma cidade em movimento. Novos empreendimentos surgem, empresas continuam abrindo as portas e o mercado de trabalho segue aquecido. Os números confirmam essa percepção e mostram que a economia continua crescendo.

Esse cenário merece ser celebrado. Mas basta conversar com quem está atrás do balcão para perceber que existe outra realidade. O comerciante sente que o movimento existe, porém as vendas não acompanham a mesma intensidade. O cliente pesquisa mais, compara preços, demora para decidir e, muitas vezes, compra menos. Vale o mantra: nunca foi tão fácil comprar, mas tão desafiador vender. Não se trata exatamente de uma crise. É uma mudança na forma de consumir.

Uma parcela cada vez maior da renda das famílias está comprometida com despesas essenciais, financiamentos e juros elevados. Soma-se a isso um fenômeno relativamente novo: as apostas esportivas e os jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros, retirando bilhões de reais que antes circulavam no comércio e nos serviços. É dinheiro que deixa de movimentar a economia local e gerar empregos.

O consumidor continua comprando, mas de maneira muito mais racional. Pesquisa, negocia, espera promoções e avalia melhor cada gasto. Isso exige uma nova postura das empresas.

Hoje, valor pesa mais do que simplesmente preço. E valor significa atendimento de qualidade, confiança, conveniência e eficiência. Dias desses, passei por uma situação extremamente negativa numa loja de shopping, e posso dizer que é frustrante para quem fala tanto em jornada de compra, em experiência, em como acolher clientes, observar que, em alguns momentos, falamos para ouvidos moucos. As grandes redes entenderam isso e seus preços competitivos são resultado de gestão, tecnologia, logística e produtividade.

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar as dificuldades enfrentadas pelo empresário. Juros elevados, carga tributária, burocracia, custos operacionais crescentes e uma concorrência desigual tornam o ambiente de negócios cada vez mais difícil. O comércio formal ainda disputa mercado com a informalidade e com plataformas internacionais que operam sob regras diferentes das empresas brasileiras.

Defender o comércio formal é defender empregos, renda, arrecadação e desenvolvimento para Cuiabá. Cada empresa fortalecida gera oportunidades e movimenta toda a economia.

Mas o próprio setor também precisa evoluir. Não existe mais espaço para administrar uma empresa como se fazia dez anos atrás. O consumidor mudou, a tecnologia mudou e a concorrência também. Investir em gestão, inovação, capacitação e atendimento deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade.

Esse é o papel que a CDL Cuiabá procura cumprir: defender melhores condições para quem empreende e incentivar a modernização das empresas por meio de capacitação e inovação.

Cuiabá reúne atributos que poucas capitais possuem. A força do agronegócio, a localização estratégica, os investimentos em infraestrutura e o espírito empreendedor da nossa gente criam um ambiente favorável ao desenvolvimento. Mas esse potencial só será plenamente aproveitado com um comércio forte e competitivo e na união entre setor público e privado.

Por isso, precisamos discutir com seriedade temas que impactam diretamente a atividade econômica: juros elevados, concorrência desleal, excesso de burocracia e os efeitos das apostas sobre o consumo das famílias. Não são questões secundárias. Elas influenciam o caixa das empresas, a geração de empregos e o crescimento da cidade.

Continuaremos defendendo quem investe, gera empregos e acredita em Cuiabá. Porque desenvolvimento de verdade não se mede apenas pelos indicadores econômicos. Ele precisa ser percebido no caixa das lojas, na confiança do empresário e na vida de quem faz nossa economia acontecer todos os dias.

*Júnior Macagnam é empresário do setor da moda há mais de 20 anos e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá).

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O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

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Há um paradoxo instalado nas escolas brasileiras. Exigimos do docente formação cada vez mais sofisticada e, simultaneamente, reduzimos sua margem de decisão. O resultado é um profissional altamente demandado, pouco autorizado e valorizado.

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.

Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.

A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.

Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.

É tentador ler isso como permissividade. É o contrário. Aquele sistema é mais exigente que o nosso, apenas desloca o rigor para a porta de entrada, em vez de distribuí-lo em controles posteriores.

Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.

Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.

Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.

O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.

A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.

Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.

Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.

Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

 

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