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Educar também é celebrar o caminho percorrido

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Por Márcia Amorim Pedr’Angelo

O fim do ano letivo não é apenas um marco no calendário escolar. Ele é, antes de tudo, um momento de leitura coletiva do caminho percorrido. Cada apresentação, cada mostra pedagógica, cada gesto de encerramento carrega algo que vai além da festa: revela vínculos, amadurecimento e pertencimento.

Na escola, as celebrações de final de ano cumprem uma função que nem sempre é nomeada, mas que é central no processo educativo. Elas tornam visível o que foi construído ao longo dos meses. Não apenas em termos de conteúdo, mas de convivência, autonomia, responsabilidade e identidade. Quando uma criança sobe ao palco, expõe um trabalho ou compartilha uma conquista, ela não está apenas mostrando o que aprendeu. Está reconhecendo a si mesma como parte de uma trajetória.

Esse momento só faz sentido porque é vivido em conjunto. A presença das famílias não é decorativa, nem protocolar. Ela é pedagógica. Ao ocupar o mesmo espaço da escola, pais e responsáveis passam a enxergar a aprendizagem como processo e a criança, por sua vez, entende que sua formação não acontece em compartimentos isolados, mas na convergência entre casa e escola.

Celebrar, nesse contexto, é fortalecer um dos pilares mais importantes da educação: a corresponsabilidade. Quando a escola convida as famílias a celebrar, ela também as convida a participar, compreender e sustentar o projeto educativo. Não se trata apenas de assistir, mas de pertencer. É nesse vínculo que a aprendizagem ganha continuidade e sentido.

Mas o encerramento de um ciclo nunca é apenas sobre o que termina. Ele também aponta para o que começa. Ao longo da minha trajetória como educadora e empresária, aprendi que o próximo ano não se constrói em janeiro. Ele começa agora, na forma como lemos o que foi vivido, no diálogo que estabelecemos com as famílias e na clareza dos valores que escolhemos sustentar.

Os desafios que 2026 apresenta exigirão ainda mais proximidade, escuta e intencionalidade. A escola precisará seguir como espaço de acolhimento, mas também de formação crítica, autonomia e responsabilidade. E isso só será possível se o vínculo com as famílias continuar sendo tratado como parte estrutural do processo educativo.

Celebrar o fim do ano, portanto, é também um ato de planejamento. É olhar para trás com responsabilidade e para frente com propósito. Porque educar nunca foi apenas preparar para o próximo ano letivo, mas para a vida que continua se formando, dia após dia, na relação entre escola, família e criança.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus,

e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

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O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

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Há um paradoxo instalado nas escolas brasileiras. Exigimos do docente formação cada vez mais sofisticada e, simultaneamente, reduzimos sua margem de decisão. O resultado é um profissional altamente demandado, pouco autorizado e valorizado.

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.

Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.

A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.

Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.

É tentador ler isso como permissividade. É o contrário. Aquele sistema é mais exigente que o nosso, apenas desloca o rigor para a porta de entrada, em vez de distribuí-lo em controles posteriores.

Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.

Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.

Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.

O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.

A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.

Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.

Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.

Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

 

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