Opinião
A Guerra dos Pés Descalços: Como uma sandália dividiu o Brasil
Opinião
Por André Barcelos
Vivemos tempos curiosos. Tempos em que a escolha de um calçado para ir à padaria pode ser interpretada como uma declaração de filiação partidária. O Brasil de 2025, em sua incansável capacidade de nos surpreender, transformou um simples comercial de fim de ano das sandálias Havaianas em um campo de batalha ideológico, provando que a polarização política atingiu um estado febril, quase sectário, onde a capacidade de interpretação de texto foi a primeira vítima.
O estopim da mais recente guerra cultural foi uma peça publicitária estrelada pela atriz Fernanda Torres. Em um cenário leve e descontraído, típico do verão brasileiro, ela olha para a câmera e, com um sorriso, deseja ao espectador um feliz ano novo. Mas não da forma como estamos acostumados. A mensagem, que em qualquer outra época passaria como um simples jogo de palavras criativo, tornou-se o centro de uma polêmica nacional.
“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não depende de você, depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés. Havaianas, todo mundo usa, todo mundo ama.”
Para um observador isento, a mensagem é clara e, ouso dizer, inspiradora. A campanha propõe a troca da passividade supersticiosa de “começar com o pé direito” pela atitude proativa e enérgica de “entrar com os dois pés na porta“. A expressão, consagrada no vernáculo brasileiro, significa agir com determinação, com força total, sem hesitação. É um convite à ação, ao protagonismo, a tomar as rédeas do próprio destino no ano que se inicia. Uma mensagem positiva, de empoderamento.
Contudo, no tribunal das redes sociais, onde a lógica e a nuance raramente prevalecem, a interpretação foi outra. A simples menção de não começar com o “pé direito” foi sequestrada por um viés político delirante. Para um segmento do espectro ideológico, a palavra “direito” não era mais um advérbio de modo ou uma referência à lateralidade, mas um sinônimo de “direita” política. A negação da expressão foi, portanto, lida como um ataque direto, uma provocação da “esquerda globalista” financiada por uma marca de sandálias.
A reação foi imediata e performática. Políticos e influenciadores de direita, como os deputados Eduardo Bolsonaro e NikolasFerreira, prontamente declararam guerra ao chinelo. Vimos vídeos de pares de Havaianas sendo jogados no lixo em sinal de protesto e convocações de boicote à marca, que, segundo eles, havia se rendido à “lacração”. De repente, a sandália que por décadas calçou indiscriminadamente brasileiros de todas as classes e crenças, o símbolo de uma brasilidade despojada, tornara-se uma “nova vilã da direita”.
Este episódio, longe de ser um caso isolado, é um sintoma agudo de nossa doença contemporânea: a incapacidade de enxergar o mundo fora da lente deformada da política. Vivemos uma era de tribalismo cego, onde cada produto, cada filme, cada canção é submetido a um teste de pureza ideológica. A filiação a um “lado” tornou-se uma identidade tão totalizante que anula todas as outras. É um comportamento quase religioso, onde o mundo se divide entre os “puros” e os “hereges”, e até um par de sandálias pode ser excomungado.
O mais irônico em toda essa cruzada contra o calçado de borracha é que ela segue um roteiro já conhecido e, invariavelmente, contraproducente. Em 2023, uma campanha do chocolate Bis com o youtuber Felipe Neto gerou uma onda de boicote similar. O resultado, segundo o sindicato dos trabalhadores da fábrica, foi um aumento no consumo e na produção. A polêmica, em vez de prejudicar, gera engajamento e publicidade gratuita. No fim das contas, enquanto a militância se digladia, quem lucra é a própria marca – no caso das Havaianas, a Alpargatas, controlada pela gigante Itaúsa. A guerra cultural, ao que parece, é um ótimo negócio.
Enquanto isso, a esquerda, em resposta, abraça o produto atacado. Parlamentares do PT prometeram usar Havaianas no Congresso, transformando o chinelo em um símbolo de “resistência”. E assim, o ciclo se completa. O objeto de consumo é esvaziado de sua função original e se torna um mero significante na guerra de narrativas. O cidadão comum, que só queria um chinelo para não queimar o pé no asfalto quente, agora corre o risco de ser rotulado politicamente pela cor da sua sandália.
Talvez a grande lição dessa pequena e barulhenta tempestade em copo d’água seja a de que, quando a ideologia cega, a inteligência se despede. A incapacidade de compreender uma metáfora simples e positiva como “entrar com os dois pés na porta” e transformá-la em uma ofensa política diz muito sobre o estado de nosso debate público. A campanha das Havaianas, sem querer, nos deu um diagnóstico preciso: precisamos, urgentemente, tirar os pés da lama da polarização e caminhar, talvez descalços, em direção a um terreno onde as palavras ainda tenham seu significado original e uma sandália seja apenas uma sandália.
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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