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O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

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Há um paradoxo instalado nas escolas brasileiras. Exigimos do docente formação cada vez mais sofisticada e, simultaneamente, reduzimos sua margem de decisão. O resultado é um profissional altamente demandado, pouco autorizado e valorizado.

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.

Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.

A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.

Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.

É tentador ler isso como permissividade. É o contrário. Aquele sistema é mais exigente que o nosso, apenas desloca o rigor para a porta de entrada, em vez de distribuí-lo em controles posteriores.

Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.

Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.

Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.

O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.

A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.

Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.

Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.

Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

 

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O próximo ciclo de desenvolvimento de Mato Grosso será urbano

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Por Rodrigo Arruda e Sá*

Durante décadas, Mato Grosso construiu uma história admirável de crescimento. Transformou-se em uma potência do agronegócio, tornou-se um dos maiores produtores de alimentos do planeta e consolidou uma economia que hoje figura entre as mais dinâmicas do Brasil. Esse ciclo continuará sendo motivo de orgulho para todos nós. Mas acredito que o próximo grande desafio do Estado será outro.

O próximo ciclo de desenvolvimento de Mato Grosso será urbano. Não porque o campo perderá importância, mas porque a riqueza produzida por ele precisará ser transformada em qualidade de vida nas cidades.

O desenvolvimento de um Estado não se mede apenas pelo volume de grãos colhidos ou pelo tamanho de seu rebanho. Mede-se também pela qualidade das escolas, dos hospitais, das universidades, dos parques, da mobilidade urbana e dos espaços públicos oferecidos à sua população.

Os números ajudam a compreender essa mudança. Mato Grosso já possui uma população estimada em quase 3,9 milhões de habitantes e continua entre os estados que mais crescem no país.

A maior parte dessa população vive nas cidades e depende diariamente de infraestrutura urbana, serviços públicos, transporte, comércio e lazer. O futuro econômico continuará sendo construído no campo, mas o futuro social será decidido, cada vez mais, nos centros urbanos.

Esse cenário não representa uma escolha entre campo e cidade. Ao contrário. Nunca o agronegócio dependeu tanto de cidades bem estruturadas.

O produtor rural precisa de hospitais de excelência, universidades capazes de formar profissionais qualificados, logística eficiente, tecnologia, serviços especializados e mão de obra preparada. Da mesma forma, as cidades dependem da riqueza produzida no campo para gerar empregos, arrecadação, investimentos e oportunidades.

Basta observar o que aconteceu nas últimas décadas. Cidades como Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste, Nova Mutum e Rondonópolis cresceram impulsionadas pela força da produção agropecuária.

O desafio agora deixou de ser apenas crescer. Passou a ser crescer bem. Isso significa planejar bairros antes da expansão desordenada, preservar áreas verdes antes que desapareçam, investir em mobilidade antes que os congestionamentos se tornem permanentes e proteger rios e nascentes antes que sua recuperação se torne muito mais cara.

Como contador e empresário, aprendi que toda organização enfrenta momentos de transição. Empresas que continuam administrando estruturas pequenas depois de se tornarem grandes acabam perdendo eficiência. Com os estados acontece exatamente o mesmo. Mato Grosso já não é apenas uma fronteira agrícola. É uma potência econômica que precisa construir cidades compatíveis com sua nova dimensão.

Isso exige uma mudança de mentalidade. Precisamos discutir onde crescerão nossas cidades nas próximas décadas, como protegeremos o Rio Cuiabá e tantos outros cursos d’água, quantos parques urbanos queremos oferecer às futuras gerações e como integrar desenvolvimento econômico com qualidade de vida. Essas não são pautas secundárias. São decisões que determinarão a competitividade do Estado nas próximas décadas.

Os estados mais desenvolvidos do mundo compreenderam que riqueza e urbanismo caminham juntos. Empresas escolhem investir onde conseguem atrair talentos. Famílias escolhem viver onde encontram segurança, boas escolas, espaços públicos de qualidade e cidades agradáveis. O desenvolvimento econômico do século XXI dependerá cada vez mais dessa capacidade de transformar crescimento em bem-estar.

Mato Grosso já demonstrou ao Brasil que sabe produzir riqueza. Agora precisa mostrar que sabe transformar essa riqueza em cidades mais organizadas, mais verdes, mais inteligentes e mais humanas. O sucesso das próximas décadas não será medido apenas pelas safras recordes, mas pela capacidade de oferecer qualidade de vida às pessoas que fazem esse Estado crescer todos os dias.

*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.

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