Cultura
Dragão Nazárea: arte de rua como ocupação territorial anima Fortaleza
Cultura
Para fortalecer o protagonismo das periferias na política cultural do estado do Ceará, o Núcleo de Articulação Territorial, realiza neste sábado (13) a primeira edição do Programa Dragão Nazárea.

O evento acontece no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. A iniciativa surge como mais uma alternativa de difusão das artes e da cultura nos territórios da Região Metropolitana da capital cearense.
Inspirado e construído com as comunidades vizinhas ao Dragão do Mar, o Nazárea – expressão local usada para afirmar pertencimento e reconhecer a potência da produção de quem reside no entorno do Centro Cultural -, tem como público-alvo os jovens, artistas e demais moradores das periferias de Fortaleza. A programação montada busca valorizar os talentos desses locais, gerando visibilidade, circulação e incentivando a economia criativa.
A estreia do projeto será no bairro Moura Brasil, a partir das 9h. Após um café comunitário, dez artistas visuais irão coordenar a pintura de um mural de cerca de 50 metros. No período da tarde, a partir das 13h, vários artistas urbanos comandam um grafitaço coletivo aberto ao público. As pessoas presentes terão liberdade para intervir espontaneamente nos trechos disponíveis do muro, utilizando materiais e tintas extras disponibilizadas. Os Djs Nayma e Maze farão a trilha sonora enquanto o muro vai sendo coberto pela arte.
Às16h, um bate-papo mediado por Camila Oliveira, ao lado de convidados da cena urbana, vai debater a arte de rua, grafite, pixo e o protagonismo territorial.
Criado em 2023, o Núcleo de Articulação Territorial é um espaço de escuta e cuidado entre o Centro Dragão do Mar e os territórios ao seu redor como o Moura Brasil, o Poço do Dragão e a Graviola. Por meio de estratégias integradas à programação cultural, o núcleo atua na garantia de direitos e serviços para pessoas em situação de vulnerabilidade, promovendo diálogo, escuta ativa e fortalecimento comunitário a partir do protagonismo dos próprios moradores.
No instagram @dragaodomar é possível acessar mais detalhes sobre o programa que será levado para outros bairros nos próximos meses.
Cultura
Angeli completa 70 anos e tem obra celebrada por amigos e artistas
Do punk anarquista Bob Cuspe à desbocada e libertária Rê Bordosa.

Dos Skrotinhos, gêmeos politicamente incorretos, ao Wood & Stock, dois hippies parados no tempo, passando pelo guru picareta Ralah Ricota.
Angeli criou personagens de forma crua e ácida para retratar tipos urbanos controversos.
O paulistano do bairro da Casa Verde se tornou um dos maiores chargistas e cartunistas do país e completa 70 anos nesta segunda-feira (31).
Arnaldo Angeli Filho já desenhava na infância e o contato na adolescência com os desenhos de Millôr Fernandes, Jaguar e Ziraldo no jornal O Pasquim foi decisivo para a escolha de se tornar cartunista.
Nos anos 70, começa a fazer charges para o jornal Folha de S.Paulo e, logo depois, cria a tira diária Chiclete com Banana, que se transforma numa revista de quadrinhos independente.
É nessa publicação que surgem os personagens “Los 3 Amigos”, criados por Angeli e pelos cartunistas Glauco e Laerte.
Ao trio, se junta Adão Iturrusgarai, o quarto elemento dos amigos.
Adão conta que conheceu o trabalho de Angeli pelas histórias da Rê Bordosa e comenta o impacto da obra do amigo:
“Arrisco a dizer que o Angeli é um dos maiores artistas do mundo do século 20, né? Ele quebrou aí com uma tradição do quadrinho mais durão brasileiro, mais sisudo, né? Naquela época que eu conheci o trabalho dele, era uma época que todos os cartunistas estavam voltados para a coisa da ditadura, né? O cartoon com o general. E daí, de repente, o Angeli veio com aquela pegada Rolling Stones, de rock, né? Isso que me pegou muito. Vestido de preto, punk”, diz.
Bob Cuspe, o punk velho e ranzinza que cospe na hipocrisia da sociedade, é um alter ego do próprio Angeli.
Criador e criatura se deparam no filme lançado em 2021, “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, dirigido por Cesar Cabral.
Num trecho da animação, Angeli fala sobre as mudanças no seu trabalho:
“O Angeli não é o mesmo. Mudou muito. O meu desenho mudou. Você acorda um dia que você não tá bom. Não tem como pensar uma coisa legal e tal”, diz.
Sem medo de mudanças, o cartunista decidiu matar sua personagem mais famosa, a nada careta Rê Bordosa, que explodiu de tédio depois de se casar.
O cineasta Otto Guerra, diretor da animação “Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll”, fala sobre a personagem que não poderia ficar de fora do filme:
“A gente colocou ela. A Rê Bordosa é um tapa na cara, né, das pessoas que passam o tempo fingindo coisas, né? Ou tendo que assumir papéis, né? No fim das contas, a gente acaba tendo que usar várias máscaras. E a Rê Bordosa não usava nenhuma. Ela era muito autêntica. Grande personagem. Grande Angeli”, diz.
A atriz Grace Gianoukas deu voz à Rê Bordosa num curta-metragem, na série de animação e no longa “Bob Cuspe”.
Para Grace, Angeli traduziu como ninguém o espírito dos anos 80 e 90:
“É de uma profundidade psicológica, o é. É estudo aprofundado traduzido em síntese dos tipos modernos brasileiros da época. E ainda hoje, se tu vai ler, por exemplo, ‘Os Skrotinhos’, eles estão em todos os lugares. Todos os personagens do Angeli, eles são síntese da busca humana por aceitação ou por aceitar o nosso caos. Eu sou devota de Angeli”, diz.
Depois da morte de Rê Bordosa em 1987, Angeli criou Os Skrotinhos.
Para a cartunista Laerte, são eles os personagens favoritos criados pelo amigo:
“Eles são muito interessantes porque eles têm uma grande variação de atuação. Eles já se apresentaram como mulheres, como negros, como gays… E como os Skrotinhos que sempre são, né? Que sempre foram. Eu gosto porque eles colocam a história em situações limites, situações de desafio e eles colocam as pessoas todas nessas crises”, aponta.
Angeli se aposentou em 2022, após diagnóstico inicial de afasia, condição que afeta a comunicação verbal e escrita, posteriormente confirmada como parte de um quadro de demência frontotemporal, uma doença neurodegenerativa.
Cronista que traduziu em imagens as peculiaridades da metrópole e de seus tipos urbanos com seu traço único, Angeli provocou uma verdadeira revolução nos quadrinhos brasileiros.
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