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Quando a alma clama: A coragem de se libertar!

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Por Soraya Medeiros

Outro dia, enquanto tomava meu café e olhava distraidamente para a janela, senti um aperto no peito que não veio do lado de fora — veio de dentro. Era como se algo, lá no fundo, sussurrasse: “Você está insistindo em carregar o que já devia ter soltado faz tempo.”

Não era a primeira vez que escutava essa voz silenciosa. Já tinha sentido isso em outras manhãs, em conversas interrompidas, em lágrimas contidas, em noites em que o sono não vinha. A alma fala. E quando ela clama, é impossível fingir que não escutou.

A gente aprende que a vida tem encontros marcados. Que nada é por acaso. Que os caminhos se cruzam com propósito. E, de fato, cada pessoa que entra na nossa vida traz um pacote — de afeto, de desafio, de lição. Como nos ensina Kardec, essa existência é um grande campo de provas. Mas nem toda prova precisa ser castigada.

O problema é quando confundimos missão com martírio. Bezerra de Menezes já alertava: quantos de nós ficamos presos em relações adoecidas, acreditando que estamos sendo espiritualmente leais? Achamos bonito suportar, insistir, salvar. Mas será que isso é mesmo evolução? Ou é só medo disfarçado de virtude?

Às vezes, aquilo que chamamos de amor é só apego. E o que chamamos de fé é só resistência em mudar. Emmanuel dizia com sabedoria: “Não há progresso possível quando o espírito se torna prisioneiro de vínculos que adoecem.” E como é difícil admitir que, apesar de toda tentativa, o outro não quer — ou não consegue — acompanhar nosso passo. Não é sobre desistir do outro. É sobre se escolher.

Soltar amarras dói. Fere o ego, bagunça os planos. Mas permanecer onde a alma grita por liberdade machuca ainda mais. É preciso coragem para olhar no espelho e reconhecer: “Já dei tudo de mim, e agora é hora de seguir.”

A espiritualidade não exige que a gente se anule. Ela pede lucidez. Pede amor — inclusive o amor por si. E amor, às vezes, é ter coragem de partir. É confiar que, lá na frente, Deus se encarrega dos reencontros. Que cada alma tem seu tempo. E que não cabe a nós apressar o relógio de ninguém.

Se hoje, em silêncio, algo dentro de você também está clamando, escute. Talvez esse seja o seu sinal. A vida nova que você tanto espera só começa quando a velha finalmente é deixada para trás. Solte. Confie. Caminhe. Porque a vida — essa sábia mestra — não quer te ver acorrentado. Ela te chama — com amor — para voar.

*Soraya Medeiros é jornalista com mais de 23 anos de experiência, possui pós-graduação em MBA em Gestão de Marketing. É formada em Gastronomia e certificada como sommelier.

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O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

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Há um paradoxo instalado nas escolas brasileiras. Exigimos do docente formação cada vez mais sofisticada e, simultaneamente, reduzimos sua margem de decisão. O resultado é um profissional altamente demandado, pouco autorizado e valorizado.

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.

Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.

A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.

Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.

É tentador ler isso como permissividade. É o contrário. Aquele sistema é mais exigente que o nosso, apenas desloca o rigor para a porta de entrada, em vez de distribuí-lo em controles posteriores.

Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.

Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.

Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.

O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.

A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.

Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.

Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.

Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

 

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